Manifesto contra a Dessensibilização da Vida

dezembro 19, 2010

Olá a todos. Esse texto foi feito coletivamente por Daniel Sodré, Marco Sodré e eu (Rodrigo Souto).
O processo de criação foi meio complicado, mas no final ficamos felizes com o resultado. Espero que sirva para a vida de vocês!

Manifesto contra a Dessensibilização da Vida

Evolução, em geral um sinônimo de desenvolvimento e adaptação, tem sido na verdade a justificativa de diversas atrocidades cometidas contra pessoas, contra a vida e contra o planeta. Enquanto teoricamente desenvolvemos nossa capacidade intelectual para vivermos de forma mais harmoniosa, trilhamos pragmaticamente um caminho de auto-destruição pelo bem da estética, da arrogância e da cobiça. Dentro das nossas universidades, fóruns e conferências, defendemos tão ferrenhamente o bem comum, mas no mundo a fora vivemos uma evolução completamente egoísta. Apesar do nosso “Zeitgeist” (espirito da época) estar baseado num discurso do politicamente correto e sobre uma evolução auto-sustentável, hoje nós temos uma forma de evolução que visa o bem individual. Essa forma de evolução individualista sempre existiu na maioria das sociedades do mundo. Porém, com o surgimento da tecnologia, o abismo entre o bem individual e o bem comum decidiu não mais viver nas sombras e brigar pelo seu lugar no sol. Bem, a julgar pelo mundo que nós temos hoje, parece que o plano dele tem dado bastante certo.

O fato é que nossa sociedade deixa buracos pelo caminho em prol de uma evolução sem precedentes. Temos inúmeras clínicas de beleza por aí enquanto existem pessoas morrendo por doenças de cura já descobertas. Encontramos quilômetros e quilômetros de fábricas para produzir shampoo para cabelo enquanto existem pessoas sem ter onde morar. Madames ricas pagam uma fortuna para retirar o excesso de gordura que utilizamos fazer sabonetes de luxo enquanto muitos morrem de fome. O pior de tudo é que ninguém escapa de toda essa a sujeira. Não só nossas mãos estão banhadas de sangue, mas também nossos lábios.

Mas isso não acontece por que nós somos maus por natureza. Na verdade, somos induzidos a sermos e aceitamos essa indução. Neste momento, enquanto eu falo sobre todas essas merdas, você provavelmente está se sentindo culpado (isso se o seu caso ainda não é grave). Mas, infelizmente, já foi criado um mecanismo de defesa dentro de você durante todos esses anos para que você consiga continuar a sua vida sem questionar todo esse lixo, permitindo que os interesses individuais prevaleçam sobre os coletivos. Esse mecanismo é a dessensibilização da vida.

É como se fosse uma crosta/armadura social para abrirmos os olhos de manhã sem desejarmos não termos aberto. É uma “capsula protetora” que nos protege da nossa própria consciência e nos faz fechar os olhos para o que está “bem do lado de fora da sua porta”.

A pior parte é que ele não foi uma simples consequência das suas experiências de vida, ele foi uma consequência de todo um processo de criação de consensos ilusórios aos quais você foi e é diariamente bombardeado através dos meios de comunicação e das pessoas que já foram previamente adestradas pelo sistema. E o surgimento da tecnologia teve um papel fundamental nessa manipulação.

Com o avanço da tecnologia e do poder das mídias comunicativas, a influência dos meios de comunicação aumentou exponencialmente. A mídia passou a estar presente intensamente em todos os momentos da vida de uma pessoa. Essa presença se converte em uma injeção gigantesca de informações diariamente que não podem ser assimiladas em tempo hábil. Isso faz com que a difícil assimilação dessa quantidade de informações e o contato constante com elas se confunda com o nível de normalidade dos dados. Daí as pessoas acabam aceitando boa parte das informações simplesmente por comodidade e medo de rejeição. Esse é um processo tão ubíquo e furtivo, que mesmo as pessoas mais conscientes dos problemas do mundo acabam por assimilar definições sem ao menos perceber. Então graças ao poder tecnológico, instaurar esse mecanismo se tornou extremamente simples, basta definir o que é normal e repetir isso indefinidamente na cabeça das pessoas.

Mas apesar de simples, esse mecanismo tem resultados e proporções espantosos. Através dele você pode definir, não o que as pessoas devem pensar, mas o quão importante ou aceitável cada coisa é. A partir dele, as pessoas começam a aceitar coisas que inicialmente em suas concepções seriam completamente inaceitáveis simplesmente por acreditar que todo mundo acha o mesmo. Com isso você tem um fator crucial no controle das pessoas: a garantia da impotência reacionária individual.

Além de tudo isso, essa manipulação tem um fator determinante na sua sustentação. Ela é auto-alimentada. Com o tempo, a força da influência das próprias pessoas no meio cotidiano faz com que não seja mais necessária a intervenção dos meios de comunicação. As próprias pessoas se encarregam de garantir que as próximas gerações carreguem o mesmo consenso dentro de si e a mídia só acrescenta os novos aspectos.

Assim como Hitler usou a mídia na Alemanha para criar um conceito cultural manipulatório favorável, essa dessensibilização tem o mesmo poder e é ainda pior. Foi gerada em milhares de anos numa avalanche cultural que fez surgir super totens incontroláveis.

No final das contas, a sociedade define o que é normal independente do que seja e é daí que começa a atrocidade das pessoas contra a vida.

Vemos ela na politica com a aceitação das inescrupulosidades. Deputados escolhendo quanto de aumento vão ter, enquanto dançam entre partidos e ideologias. Comunista que vira democrata, socialista na cor da camisa vermelha e capitalista nas veias, uma valsa em que ganha mais quem continuar dançando. Vemos através de programas que vendem a pobreza, a destruição e a morte. Vemos nas mais bárbaras desigualdades sociais. Enquanto milhares de pessoas morrem na África de guerras étnicas sem sentido geradas por colonizadores e alimentada pela fome, você, como um pedaço de bosta manipulável e covarde, acha que a culpa não é sua e sim de quem esta com a mão na descarga. Enquanto você discuti a meta-física dos pseudo-universos projetivos, o futuro do nosso pais esta no semáforo pedindo trocados para não morrer de fome ou usando drogas que foram criadas com o propósito de matar mendigos em outro países. Enquanto você planeja fazer alguma coisa de sensato para melhorar a situação do mundo, a desigualdade social cresce em níveis estratosféricos e essas crianças, sem um pingo de educação, tendem a usar a violência como animais acuados. Violência essa que vai ser a desculpa usada por nós porcos da classe média/média alta/alta/altíssima do sistema para tratarmos esses menores como indigentes criminosos colocando-os em “institutos reformatórios”. No final das contas esses mesmos jovens serão aqueles que vão estar comandando bocas de fumo nas favelas e serão os mesmos também que vão estar sendo mortos, presos e torturados pelo Bope enquanto você assiste emocionado o “blindado” do exército invadir as favelas ao som de músicas épicas de filme. Não podemos esquecer, é claro, que todo esse show é financiado pelas grandes empresas interessadas em fazer marketing de massas.

Então não esqueça. Enquanto você está em casa preocupado agora com os vídeos idiotas do youtube, tem um doente sofrendo em uma fila infinita de hospital, uma pessoa morrendo de fome e frio e uma criança sendo violentada. E eu quero que você pense nisso e sinta isso. Sinta a dor de cada uma dessas pessoas. Não se permita gozar da confortável insensibilidade. Você tem sua parcela nisso tudo. Assuma os frutos da sua acomodação e receba a sua parte nesse sofrimento. Não deixe a tristeza e a culpa irem embora como você sempre faz. Elas são as únicas armas que você tem para lutar contra toda essa sujeira. Enquanto no seu coração você conseguir carregar o peso da sua culpa, tanto pelos seus ataques contra a vida quanto pela sua patética inércia e comodidade em relação ao ataque dos outros, você não será um inútil de merda achando que tem algum tipo de controle e autoridade por conta do numero que você repete de quatro em quatro anos numa calculadora digital. Ache o seu lugar na privada e ajude a desentupi-la.

Viva a merda.
Viva a desgraça.
Viva a vida.


Citações:
Esquadros – Adriana Calcanhoto
Testify – Rage Against The Machines

Autores:
Rodrigo Souto
Daniel Sodré
Marco Sodré

4 Respostas to “Manifesto contra a Dessensibilização da Vida”

  1. seudaniel said

    Pois é, ainda não sei se deveríamos venerar ou jogar no lixo isso aqui.
    Sentir isso é bom?

  2. Estava relendo o texto e seu comentário e eu tenho uma resposta.
    Não é bom sentir isso. Mas você só tem duas opções: sentir isso ou viver feliz com os olhos da sua consciência fechados.

    “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades” e nós, com nossa inteligência e dinheiro, frutos de uma sociedade extremamente desigual, carregamos uma parte da responsabilidade de toda essa merda. Se nós temos hoje tempo e um computador para escrever esse texto, educação para entendê-lo e crítica para comentá-lo, isso é porque muitas pessoas hoje não tem nem o que comer.

    Então, sim, esse sentimento é o único combustível que nós temos para escapar da anestesia.

  3. Realmente somos culpados.
    Cabe a nos,reverter este quadro fazendo alguma coisa que ajude, não criando escudos culturais que não passam de anestesias sociais que só ajuda alimentando o ego da gente… A saida é colocar a mão na massa, perder um tempo, conhecer o problema(viver o problema), sair do habitat ridículo em que vivemos e a partir disso fazer uma analise, se tocar que em uma escala de problemas tão grandes, mudar somente as nossas vidas não vai realmente ajudar as pessoas(a fábula do passarinho já se transformou numa falácia a um bom tempo…),vai terminar sendo um numero insignificante comparado com o que realmente poderíamos fazer.
    Sei lá, também defendo o argumento: “estou fazendo minha parte, e de consciencia tranquila”, TODO MUNDO é sujo e TODO MUNDO é mal lavado, isto posto, podemos continuar…

    • Acho que a fábula do passarinho ainda é válida. O mais importante em ser passarinho e apagar o fogo, não é o tanto de fogo que você apaga, mas sim o fato de você estar apagando. A influência que nós causamos ao nosso redor é gigantesca.

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