Vida

fevereiro 9, 2011

Há momentos em que a vida parece triste.
Simplesmente seguindo desgovernada a algum lugar vazio.
Sem receio do futuro, nem vergonha do passado.
Repetida em ciclos previsíveis onde as pessoas se destroem.
Pessoas tão grandes dentro de si, que não veem o quão pequenas são no mundo.
Pessoas decididas a ganhar o mundo que não tem dono.
Pessoas que são permitidas pelas estatuas caminhantes que vivem.
Só vivem.
Pagam suas dividas e vendem aos poucos as suas almas até a morte esperada.
Vazias de esperanças ou sonhos.
Talvez, de repente, alguns planos sem conclusão.
Corrompidas por suas próprias corrupções e fragmentadas em pedaços sem direção.
Perdidas em crises emocionais e surtos psicológicos.
Estagnam seu redor.
Sua vida.
Nosso mundo.

E às vezes parece não ter mais jeito.
Parece que a vida se perdeu.
Ou talvez nunca tenha se encontrado.
Parece que o vazio de dentro é tão infinito quanto a tristeza de fora.
Ou talvez maior.
Parece que sentir é por demais sentido.

É quando sinto isso que eu consigo ver.
Ver o mundo de dentro da sua sujeira.
Ver a vida de dentro da sua tristeza.
E num simples sorriso de uma criança, eu sinto o poder do vazio.
Sinto como sua vastidão e inexistência transcendem o valor de uma mínima existência dentro de si.
Compreendo o significado mais puro da parcela mais atômica de um todo.
E fundido de minha compreensão exacerbada e superestimada do vasto infinito, percebo que no fundo dos nossos corações crepitados de hipocrisia, existe uma ingênua criança banhada de alegria numa busca sincera pela borboleta que voa direto para um efêmero, mas morno, raio de sol.

Anúncios

SWU – Fucks with you

outubro 13, 2010

Neste final de semana aconteceu na Fazenda Maeda na cidade de Itu/SP o que foi um dos maiores eventos musicais do Brasil: o SWU (Starts With You). O SWU é um festival de música que tem como tema a proteção do planeta e o desenvolvimento sustentável, daí vem o slogan “Starts with you” (Começa com você) que incentiva as pessoas a tomarem a iniciativa na proteção do planeta. Como eu não podia deixar de assistir o Queens of The Stone Age e o Pixies ao vivo e no Brasil, eu fui.

SWU – Starts with trash
Chegando lá a primeira coisa que me chamou a atenção não foi a incrível vista que a Fazenda Maeda podia me proporcionar, mas sim um lindo e  amplo campo coberto de lixo. Desde papeis de bala a garrafas de vinho. Não era isso que eu esperava de um evento que incentiva a sustentabilidade, mas tudo bem, afinal, eles não podem controlar que tipo de pessoas irá para lá. Passados mais alguns minutos eu percebi o porque daquela situação. Do lado de fora da entrada do evento não tinha latas lixo. Mas tudo bem, eles disseram que o “evento” é sobre sustentabilidade, não tinha nada dizendo sobre o espaço fora do evento né…  ¬¬

SWU – Steals from you
Passado o primeiro impacto, eu voltei ao meu estado de otimismo (eu iria ver QOTSA no final da noite!) e segui na fila até a minha vez de entrar (vamos deixar de lado as pessoas que furavam fila sem o menor peso na consciência, que podiam não estar jogando lixo no planeta, mas as suas simples existência já era bem pior do que todo o lixo que elas poderiam ter jogado…). Na hora de entrar fiquei sabendo que não podia entrar com NENHUM tipo de comida ou bebida. Eu, ingenuamente, acreditei que quando ele falou “bebida” referia-se a bebidas alcoólicas, mas não. Você não podia entrar nem mesmo com uma garrafa madeira com água e um sanduíche natural. “Vamos lá pessoal! Jogando tudo que vocês trouxeram fora!!”
É, pelo jeito nós vamos ter que comprar comida lá dentro obrigatoriamente já que a Fazenda Maeda fica alguns quilômetros isolada de tudo. Cheguei lá esperando encontrar várias comidas saudáveis, naturais e, de repente, feitas pelos próprios moradores da região para servir como exemplo de Economia Solidária, mas o que eu encontro? Hamburguer, Cachorro-quente, pizza, … Peraí velho, quando foi mesmo que as industrias deixaram de ser o principal fator de destruição do planeta? Acho que esqueceram de me avisar. Bem, de qualquer forma eu estava morrendo de fome e sede, então fui até o balcão:
— Moço, quanto é uma água?
— R$4,00.
— Nossa (o.o’) ! Deixa pra lá, me dá um cachorro quente simples mesmo…
— Fica R$8,00, senhor.
— Não, eu falei um “cachorro quente simples”!   ^^
— Fica R$8,00, senhor.
“Extorsão
é o ato de obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, por meio de ameaça ou violência, com a intenção de obter vantagem, recompensa ou lucro.” – http://pt.wikipedia.org/wiki/Extorsão
Eu queria saber que parte da definição de extorsão fazia com que aquilo não fosse crime. Bem, talvez seja a parte que fala de violência, porque ameaça com certeza não foi já que antes de entrar eu fui ameaçado de perder meu ingresso se eu levasse alguma comida. Pra fechar com chave de ouro todas as garrafas e copos de plástico vendidos no evento não eram reutilizáveis, ou seja, toda água ou refrigerante que alguém comprasse exigiria a utilização de uma nova garrafa que só tem 51% de potencial de reciclagem.

Swu – Starts with marketing
Dando uma volta lá dentro encontrei alguns estandes de patrocinadores do evento e fiquei mais uma vez abismado ao encontrar patrocinadores como Oi, Coca-Cola, Heineken, Nestlé … show de sustentabilidade!
Pra não dizer que não teve nada de sustentabilidade, lá dentro eles colocaram um espaço para um fórum com discussões sobre o tema (que, diga-se de passagem, era menor do que o palco secundário ou a tenda pra música eletrônica).

SWU foi na verdade uma ótima maneira de ganhar dinheiro  fazendo marketing da destruição do planeta. Se teve realmente algum caráter de sustentabilidade no festival foi a sustentabilidade da riqueza da organização do evento…

Bem, hoje eu, por sorte (valeu Aurium!), vi sendo citado em um vídeo um experimento interessantíssimo chamado de “Asch Conformity Experiment“.  Além do link, tem também um vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=TYIh4MkcfJA) que explica e mostra o experimento sendo realizado.

Depois dele, decidi tirar o dia para pesquisar um pouco sobre os distúrbios causados pela sociedade na nossa cabeça e na nossa maneira de agir e o resultado que eu tive foi surpreendente. Segue para vocês uma breve compilação dos mais variados distúrbios sociais gerados pelo nosso “saudável” modelo de convivência. Vale muito a pena ver todos.

  1. Milgram Experiment (http://www.youtube.com/watch?v=BcvSNg0HZwk)
  2. Forer Effect (http://www.youtube.com/watch?v=haP7Ys9ocTk)
  3. Spiral of Silence
  4. Bandwagon Effect
  5. Agenda Setting Theory (http://www.youtube.com/watch?v=gbCYr-U7MAQ&feature=related)
  6. Bystander Effect (http://www.youtube.com/watch?v=KIvGIwLcIuw)

E pra fechar com chave de ouro: http://www.youtube.com/watch?v=OsFEV35tWsg&feature=rec-LGOUT-real_rev-rn-1r-27-HM

Depois de ver tudo isso eu me convenci ainda mais de que há dentro de nós muito menos de nós do que podemos conceber e que talvez o “eu” que nós achamos existir seja apenas mais uma consequência do universo.
Talvez no fundo nós sejamos nada. Ou tudo, como preferir. Mas não um.

“Do you believe in your head?” – Go with the Flow / Queens of the Stone Age
“Where is my mind?” – Where is my Mind / Pixies

Cultura é um conjunto de definições, conhecimentos e hábitos que são passados de geração em geração a fim de facilitar a vida cotidiana.

Eu deveria estar feliz por ter minha cabeça bombardeada de informações sobre o mundo desde quando eu nem tinha capacidade de entender porque elas deviam ser assim e, portanto, poder andar pela rua sem que a cada passo duvidasse da solidez do chão a ser pisado. Mas não estou.

Hoje me incomodam mais as marcas irremovíveis de cultura deixadas em minha cabeça que vão de encontro com minhas próprias convicções do que seria a dúvida da  solidez do chão.
Não é uma questão de não ter opinião própria, mas sim um esforço constante e irredutível de ter que reprimir os impulsos culturais da cabeça baseado nos julgamentos racionais da mente.

É você olhar para uma modelo e achar ela bonita do fundo do seu coração, mesmo sabendo que aquele estado não é saudável para qualquer corpo humano.
É, por pura possessividade e egocentrismo, se sentir ofendido e magoado por imaginar seu amor se relacionando com outra pessoa , mesmo sabendo que esses sentimentos envenenam sua alma e que ela está sendo feliz em fazer isso.
É você sentir vergonha de ficar nu mesmo sabendo que assim você veio ao mundo e viveu muitos momentos felizes na sua infância por estar assim.

Mas pior que tudo isso, não é essa luta constante com o lixo atolado em sua cabeça, mas sim a realização a cada dia da extrema dificuldade que é remover esse conhecimento embutido.

“É você se olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo
limitado, e que só usa dez por cento
de sua cabeça animal.”
Ouro de Tolo – Raul Seixas

Eu entendo que existem definições que apesar de infundadas são importantes e não fazem mal algum. Note que o vermelho é a cor do amor e graças estes tipos de definições  nós conseguimos interagir uns com os outros e sentir o mais variado ramo de sentimentos e , afinal, esse é um dos grandes objetivos da vida.

Eu não proclamo que as flores deixem de ser bonitas, nem que a pomba deixe de  ser o símbolo da paz, mas, simplesmente, que o certo deixe de ser errado.